Perfil motor de pacientes com doença de Parkinson


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    A doença de Parkinson (DP) é uma doença crônica e progressiva do sistema nervoso central, envolvendo os núcleos da base e consequentemente resultando em uma disfunção dos padrões de movimento. Acomete células da substância negra, que fazem parte do sistema dopaminérgico dos núcleos da base, esse sistema transmite sinais que controlam os movimentos do corpo (LEWIS, 2002).

    A doença de Parkinson é uma das doenças mais comum nos idosos. Apesar dos sintomas clássicos o diagnóstico clínico não é específico, não há exames laboratoriais, diagnósticos e existem outras doenças que se manifestam com Parkinsonismo e simulam clinicamente a doença de Parkinson, como a atrofia de múltiplos sistemas e a paralisia supranuclear progressiva (VEDOLIN; MARCHIORI, 2004).

    A prevalência da doença de Parkinson aumenta de acordo com a idade. 74% das pessoas com esta patologia têm mais de 70 anos e a média de início é de 65,3 anos. No entanto 1 a cada 7 parkinsonianos apresenta menos de cinquenta anos de idade. Não existe diferença de prevalência que se relacione ao sexo, classe social ou diferenças geográficas (STOKES, 2000).

    Clinicamente, a DP caracteriza-se por tremor, rigidez, bradicinesia e alterações da postura, do equilíbrio e da marcha. Além disso, os pacientes com DP podem apresentar alterações músculo-esqueléticas como fraqueza e encurtamento muscular, alterações neurocomportamentais como demência, depressão e tendência ao isolamento (CUTSON; LAUB; SCHENKMAN, 1995) e comprometimento cardiorrespiratório (CANNING et al, 1997) o que interfere diretamente na performance funcional e independência destes indivíduos.

    A maior parte dos pacientes com doença de Parkinson apresenta uma inadequada interação dos sistemas responsáveis pelo equilíbrio corporal; sistemas vestibulares, visuais e proprioceptivo, em consequência destas alterações esses pacientes tendem a deslocar seu centro de gravidade para frente, sendo incapazes de realizar movimentos compensatórios para readquirir equilíbrio e, assim, caem facilmente (ZUCO, 2003).

    A capacidade funcional, especialmente a dimensão motora, é um dos importantes marcadores de um envelhecimento bem sucedido e da qualidade de vida dos idosos. A perda dessa capacidade está associada à predição de fragilidade, dependência, institucionalização, risco aumentado de quedas, morte e problemas de mobilidade, trazendo complicações ao longo do tempo, e gerando cuidados de longa permanência e alto custo (CORDEIRO, 2003).

    O exame motor é um instrumento indispensável para os profissionais que trabalham com a terceira idade, particularmente indivíduos portadores de doenças- crônico degenerativa não transmissível. Sendo ponto de partida para uma intervenção terapêutica, pois permite identificar os problemas estabelecidos com a idade, diferenciar os diversos tipos de debilidade e, avaliar os progressos do idoso, quando submetido a um programa de terapia motora (ROSA NETO, 2002).

    A avaliação motora torna possível diagnosticar, orientar e identificar alterações em relação ao desempenho motor do indivíduo, para que haja maior fluência do movimento. A avaliação por meio de testes motores permite verificar os estágios progressivos da função física, de modo a detectar os declínios nos parâmetros físicos e planejar estratégias efetivas de intervenção.

Objetivo

    Avaliar a aptidão motora dos pacientes com Doença de Parkinson através da Escala Motora para Terceira Idade.

Materiais e método

Característica da pesquisa

    Esta pesquisa é caracterizada como descritiva diagnóstica, que segundo Rudio (1986) interessa-se em descobrir e observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e interpretá-los.

População e amostra

    O grupo foi formado por indivíduos adultos e idosos recrutados a partir de um projeto de atividade física para a terceira idade do Departamento de Fisioterapia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Os critérios de inclusão utilizados na seleção destes indivíduos foram: ser portador de doença de Parkinson idiopática diagnosticada pelo neurologista, ter idade igual ou superior a 30 anos, não apresentar outra doença neurológica e nem alterações ortopédicas ou cardiológicas, não apresentar demência, estar em uso regular de medicação antiparkinsoniana e assinar o termo de consentimento.

    A amostra constituiu-se de 11 indivíduos com DP, sendo quatro pertencentes ao sexo masculino com faixa etária de 34 a 68 anos e sete mulheres com faixa etária de 55 a 82.

Instrumento de medida

    Foi utilizada a escala Hohen & Yahr que proporciona uma avaliação clínica e evolutiva da doença (MONTE, 2004). A escala Hohen & Yahr avalia os pacientes levando em consideração os reflexos posturais, assim como a bilateralidade da doença, especialmente no que se refere à independência para as atividades da vida diária (RASR; BORGES, 2002).

    O desenvolvimento motor foi avaliado através da Escala Motora para Terceira Idade (E.M.T.I), (ROSA NETO, 2002) que compreende um conjunto de provas diversificadas e de dificuldade graduada, conduzindo a uma exploração minuciosa de diferentes setores do desenvolvimento. A aplicação num sujeito permite avaliar seu nível de desenvolvimento motor, considerando êxitos e fracassos, levando em conta as normas estabelecidas pelo autor da escala, é de fácil manejo para o examinador, em geral as provas são muito estimulantes, onde o idoso colabora durante o transcurso do exame, estabelecendo uma confiança e empatia entre examinador e examinado, resultando em uma maior confiabilidade dos resultados (ROSA NETO, 2005).

    De acordo com Rosa Neto (2002), a EMTI consiste de testes motores clássicos reunidos em uma única bateria, é aplicado individualmente e sua duração é de aproximadamente 30 a 45 minutos. As variáveis analisadas são:

  1. AMG: Obtém-se através da soma dos pontos obtidos nas áreas de motricidade fina, coordenação global, equilíbrio, esquema corporal, organização espacial e temporal.

  2. AM1: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de motricidade fina.

  3. AM2: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de coordenação global.

  4. AM3: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de equilíbrio.

  5. AM4: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de esquema corporal.

  6. AM5: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de organização espacial.

  7. AM6: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de organização temporal.

    O exame motor pode ser iniciado pela sequência de provas motoras, motricidade fina, motricidade global, equilíbrio, esquema corporal, organização espacial e organização temporal.

Para todas variáveis os pacientes foram identificados pelos números: 1, 2, 3, 4, 5,6 7, 8, 9, 10 e 11.

    Para a pontuação e a classificação dos parâmetros motores foi utilizada a classificação que consta no quadro 1.

Pontos

Classificação

132 ou mais

Muito superior

120 - 129

Superior

110 - 119

Normal alto

90 – 109

Normal médio

80 - 89

Normal baixo

70 – 79

Inferior

69 ou menos

Muito inferior

Quadro 1. Classificação da EMTI

Análise estatística

    Os dados coletados foram inseridos num banco de dados computadorizado (EpiInfo) e processados eletronicamente, fazendo a associação das variáveis do estudo com os níveis mensurados na escala motora: motricidade fina, coordenação global, equilíbrio, esquema corporal e rapidez, orientação espacial e temporal.

    Para análise das variáveis da Escala Motora para Terceira Idade foram empregados procedimentos de estatística descritiva: cálculo de medidas de tendência central (média) e de dispersão (desvio-padrão).

    O resultado para aptidão motora geral foi apresentado em forma de gráfico através do programa Microcaltm Origintm, versão, 5.0 – 1997, e para variáveis da EMTI em forma de tabelas através do Microsoft Excel®.

Resultado e discussão

    Participaram deste estudo onze (11) pacientes com diagnóstico de Doença de Parkinson, sendo quatro do sexo masculino (36,4%) e sete do sexo feminino (63,6%), com idade mínima de 34 anos e máxima de 82 anos (média 66±14,29 anos). O tempo médio de duração da doença foi de 7 ± 5,4 anos. As características de todos os pacientes estão apresentadas na tabela 1.

    Observa-se na tabela 2 que as áreas motoras que apresentaram padrões motores abaixo da normalidade foram AM1, AM2, AM3, AM4 e AM6.

Tabela 1. Caracterização dos pacientes com Parkinson

 

Tabela 2. Análise das variáveis da EMTI dos 11 parkinsonianos da amostra

    Na tabela 3 constata-se que dentro dos dados analisados 2 (dois) indivíduos apresentaram escore correspondente a classificação inferior da EMTI, 8 (oito) indivíduos classificados como muito inferior e 1 (um) com classificação normal baixo. A média da aptidão motora geral foi classificada pela "EMTI" num nível muito inferior. As áreas que apresentaram as maiores dificuldades foram respectivamente, a motricidade global, equilíbrio, esquema corporal.

Tabela 3. Distribuição da freqüência da EMTI dos 11 parkinsonianos da amostra

    Conforme a figura 1 os participantes 7 e 11 foram os que menos pontuaram na aptidão motora geral chegando a um escore de 26 pontos e 47 respectivamente. Justifica-se essa pontuação pela idade avançada e pelo tempo de acometimento da doença.

Figura 1. Aptidão Motora Geral

    A doença de Parkinson é uma doença cuja prevalência aumenta com a idade, chegando a 1% em indivíduos acima de 60 anos. Com o aumento da expectativa de vida, estima-se que por volta de 2020, mais de quarenta milhões de pessoas no mundo serão portadores de doença de Parkinson (GOULART et al, 2005).

    De acordo com Meneses (2003), podem-se encontrar pacientes com início da doença mais precoce, antes dos 40 anos e, até mesmo, abaixo dos 21 anos de idade. A doença de Parkinson pode ocorrer nas diferentes raças e classes sociais em pessoas de ambos os sexos, apesar de alguns estudos epidemiológicos demonstrarem maior frequência no sexo masculino.

    Na maior parte dos casos a manifestação da doença surge aos 60 e 70 anos de idade. Não há predominância de sexo, apesar de nos casos de início precoce, pode haver maior prevalência no sexo feminino (DONOSO et al, 2003).

    Vieira (2002) cita que o surgimento da doença não tem relação alguma com o sexo. Neste estudo encontrou-se maior prevalência do sexo feminino 7 (sete) 63,6% casos de mulheres com doença de Parkinson.

    No que se refere ao tempo de diagnóstico pode-se constatar que o menor tempo de patologia foi de 2 anos e o maior foi de 20 anos, tendo como média de diagnóstico 7 anos.

    Quanto ao estadiamento de Hoehn e Yahr dos 11 (onze) pacientes avaliados, a maior prevalência na escala de estadiamento foi cinco (5) participantes com o estágio 2,5, dois (2) com estágio 3, dois (2) com estágio 4 e dois (2) com estágio 1,5. Também se percebe que todos os participantes fazem uso do fármaco Levodopa.

    De acordo com Picon e Beltrame (2002) a levodopa é a droga mais efetiva no controle dos sintomas da DP, especialmente rigidez e bradicinesia. Embora nunca tenha sido testada contra placebo, sua consistência de efeito nos mais de 30 anos de experiência valida sua utilização clínica. Levodopa mostrou ser mais eficaz, em estudos controlados randomizados, no controle dos sintomas motores que os agonistas dopaminérgicos.

    Segundo Carvalho Filho (2000), a classificação da maioria como muito inferior, pode ser devido ao declínio das funções neurais e físicas naturais ao processo de envelhecimento e também, devido às doenças que os acometem.

    A motricidade global é responsável pela regulação do equilíbrio e da atitude do indivíduo, desempenhando um importante papel na melhora dos comandos nervosos e no afinamento das percepções e sensações (ZABALETA, 1996).

    Estudos recentes denotam a importância de instrumentos de diagnósticos e de acompanhamento para pacientes com transtornos de equilíbrio, tendo vista a complexidade desta área motora (GENTILI; KREMENCHUTZKY; SALGADO, 2003). No estudo de Teixeira (2003), com 142 pacientes os valores para a motricidade global e equilíbrio foram classificados como muito inferior.

    Além disso, os pacientes com doença de Parkinson podem apresentar alterações músculo-esqueléticas como fraqueza e encurtamento muscular, alterações neurocomportamentais como demência, depressão e tendência ao isolamento e comprometimento cardiorrespiratório o que interfere diretamente na performance funcional e independência desses indivíduos (GOULART et al, 2004).

    Conforme Andrade (2000) a rigidez e a bradicinesia (movimentos lentos), os tremores e as alterações posturais são distúrbios motores característicos da doença de Parkinson que acomete principalmente pessoas idosas, podendo causar sensíveis alterações motoras e psicológicas com a evolução da doença, contribuindo para a debilidade na capacidade funcional.

    Segundo Rosa Neto (2006), a diminuição dos mecanismos de equilíbrio (principalmente instabilidade postural), diminuição da função vestibular, prejuízo da audição e visão, e diminuição da sensibilidade vibratória e propriocepção, a diminuição da força muscular e as alterações posturais afetam as tarefas motoras que solicitam equilíbrio, e motricidade global

Considerações finais

A pesquisa desenvolvida demonstrou de forma clara uma das maiores complicações da doença de Parkinson, que é o déficit motor.

    O processo natural do desenvolvimento está ligado a modificações anatômicas e fisiológicas, que podem propiciar ao paciente com doença de Parkinson uma certa dificuldade de adaptação, devido aos comprometimentos motores que esses pacientes sofrem.

    O estudo foi de extrema importância, onde se pode traçar um perfil desses pacientes e dessa patologia que a cada dia se torna mais conhecida pela população. A pesquisa tem também um caráter informativo, permitindo, que pessoas portadoras ou não possam se informar e conhecer as verdadeiras limitações diretas e indiretas do Parkinson, permitindo assim a sua utilização para novos estudos ou até mesmo para futuras comparações. Os estudos sobre a doença de Parkinson devem ser cada vez mais incentivados, pois assim teremos um maior conhecimento para tratar de forma correta e com maior certeza dos pontos a serem melhorados.

Referências

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  • Desportos, SC, Florianópolis, 2002.

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  • ZUCCO, F. A reabilitação vestibular no idoso. Revista Fisio&Terapia, ano VII, n. 39, jan./jul. 2003.


Autores:

Rodrigo da Rosa Iop*

Franciele Cascaes da Silva**

Thatyana Costa Brandão***

fisioptb@hotmail.com

(Brasil)


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