Termo empregado para degeneração de axônios e suas bainhas de mielina após secção do nervo, geralmente traumática.  O material resultante ...

O que é a Degeneração Walleriana?


Termo empregado para degeneração de axônios e suas bainhas de mielina após secção do nervo, geralmente traumática.  O material resultante da degeneração da mielina e dos axônios tende a formar enovelados de membranas conhecidas como figuras de mielina.  Estas são encontradas tanto no citoplasma das células de Schwann como em macrófagos que afluem ao local para auxiliar na remoção dos debris.

 

Degeneração Walleriana: debris de mielina degenerada formam redemomoínhos de membranas eletrodensas em meio a prolongamentos tumefeitos de uma célula de Schwann. Corte fora da área do núcleo. Sabe-se que é uma célula de Schwann pela membrana basal (inserção, seta). No endoneuro, a presença de membrana basal identifica com segurança uma célula ou parte dela como célula de Schwann.

- A neuropraxia caracteriza-se por desmielinização segmentar das fibras de grande calibre, sem interrupção axonal. Na condução nervosa motora podemos observar a presença de bloqueio de condução ou diminuição significativa da velocidade de condução através do segmento lesado. Entretanto, a velocidade de condução acima e abaixo da lesão permanece normal. O exemplo mais clássico de neuropraxia são as mononeuropatias compressivas agudas, como a paralisia do sábado à noite (paralisia radial no sulco espiral do úmero) e a paralisia da perna cruzada (paralisia fibular na cabeça da fíbula). A recuperação ocorre dentro de semanas e o prognóstico é favorável.

- A axonotmese caracteriza-se por lesão axonal e da bainha de mielina, porém com preservação do endoneuro. Implica em degeneração walleriana distal, porém com potencial para recuperação adequada e espontânea devido à manutenção do endoneuro. Na fase aguda provoca quadro eletrofisiológico semelhante ao da neuropraxia, chamado de pseudo bloqueio da condução. Entretanto, após o quinto dia de lesão, os potenciais motores e sensoriais tornam-se anormais distalmente à lesão e após a segunda semana, potenciais de desnervação começam a surgir, em grande quantidade. Quando regeneração começa a acontecer, a amplitude dos potenciais de ação motores começa a melhorar e potenciais de reinervação ou potenciais nascentes (potenciais de unidade motora polifásicos e de pequena amplitude) podem ser vistos na EMG de agulha com contração voluntária. Os principais exemplos deste tipo de lesão são as lesões nervosas secundárias às fraturas ósseas, mononeuropatias compressivas crônicas e neuropatias secundárias à tração. A recuperação é muito mais demorada que aquela da neuropraxia e na maioria das vezes é incompleta.

- A neurotmese caracteriza-se pela transsecção total do nervo, incluindo o perineuro. Implica em degeneração axonal severa quando as extremidades nervosas separadas não são unidas cirurgicamente. Como não há continuidade axonal, a regeneração por brotamento axonal não ocorre. Na fase aguda, também se caracteriza por pseudobloqueio da condução e assim como na axonotmese, atividade espontânea anormal surge após aproximadamente 2 semanas. Aqui, nenhuma melhora da condução nervosa motora ou potencial de reinervação podem ser observados na EMG realizada algumas semanas ou meses após o trauma.

  Vertigem e tontura são sintomas comuns que podem estar envolvidos no comprometimento de múltiplos sistemas e em diferentes síndr...

Diagnóstico e tratamento das principais síndromes vestibulares



 

Vertigem e tontura são sintomas comuns que podem estar envolvidos no comprometimento de múltiplos sistemas e em diferentes síndromes. Muitos dos pacientes com estas queixas são encaminhados para a especialidade de otorrinolaringologia, mas uma parte destes pacientes é encaminhada ao neurologista. No estudo de Ferri-de-Barros e Nitrini1, foi encontrada freqüência de 2,77% pacientes com hipótese diagnóstica de síndrome vestibular encaminhados ao ambulatório de neurologia, mas freqüências de 10 a 20% também foram relatadas2.

Entre as patologias vestibulares deve-se determinar se há um comprometimento das estruturas vestibulares centrais ou periféricas, a partir da história clínica e exame físico, pois o tratamento e evolução são muito diferentes2.

Os objetivos deste estudo foram: (1) identificar as síndromes vestibulares mais comuns encontradas nos ambulatórios de vertigem, suas principais características clínicas e semiológicas e (2) observar a resposta ao tratamento específico.

 

MÉTODO

O estudo foi realizado por meio da análise retrospectiva dos prontuários dos pacientes atendidos no Ambulatório de Vertigem, na Divisão de Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no período de novembro de 1999 a dezembro de 2003; e no Ambulatório de Vertigem do Serviço de Neurologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, durante o período de setembro de 2002 a março de 2004.

Foram avaliados os prontuários de 515 pacientes encaminhados por médicos do Serviço de Neurologia (Pronto Socorro e Ambulatório), médicos de outras clínicas, principalmente devido a queixas de tonturas. Esses pacientes foram submetidos a anamnese dirigida ao sistema vestibular, exame neurológico, com atenção especial para o exame de equilíbrio estático e dinâmico, avaliação de seguimento, sacadas, pesquisa das diferentes formas de nistagmo (espontâneo, de provocação, posicional, optocinético) e reflexo vestíbulo-ocular. Exames complementares (laboratoriais e radiológicos) foram solicitados para confirmação diagnóstica e para avaliar a função do labirinto, mas não foram analisados neste estudo.

A partir do diagnóstico foi proposto o tratamento específico. A resposta ao tratamento foi avaliada no retorno dos pacientes.

Através das informações colhidas nos ambulatórios foi elaborado um banco de dados contendo: (1) informações sobre o paciente (nome, registro, idade, gênero); (2) queixa principal, tipo de vertigem e sintomas associados; (3) exame físico; (4) diagnóstico; (5) tratamento; (6) evolução.

 

RESULTADOS

Do total de pacientes avaliados nos ambulatórios, as patologias mais freqüentes, incluindo as vestibulares e não vestibulares, estão no Gráfico 1. Entre aqueles com diagnóstico de síndrome vestibular periférica estão incluídos as seguintes doenças: vertigem de posicionamento paroxística benigna (VPPB), doença de Menière, neurite vestibular, paroxismia vestibular, vestibulopatia bilateral e outras doenças menos comuns (colesteatoma, mastoidite, sarcoidose, uso de antibiótico ototóxico, neurinoma do acústico).

 

 

O Gráfico 2 mostra a freqüência das doenças vestibulares periféricas, centrais, vertigem postural fóbica, e enxaqueca e exclui os casos de tontura de causa não vestibular. No grupo identificado como "outros" foram agrupados os diagnósticos de paroxismia vestibular, vestibulopatia bilateral, colesteatoma, mastoidite, sarcoidose, uso de antibiótico ototóxico, neurinoma do acústico. Dentre as vertigens centrais estão incluídos os pacientes com nistagmo vertical, downbeat (para baixo) e upbeat (para cima), ambas caracterizadas como síndrome vestibular central no plano vertical ou "pitch", e os pacientes com nistagmo rotatório, desvio skew (desalinhamento vertical), caracterizado por síndrome vestibular central no plano frontal ou "roll".

 

 

Na Tabela 1 estão distribuídas as doenças vestibulares conforme sua freqüência assim como média de idade e gênero dos pacientes. A Tabela 2 mostra a distribuição das diferentes síndromes vestibulares encontradas nos ambulatórios de vertigem comparada à freqüência relatada na literatura. As características clínicas e semiológicas, e o tratamento das principais doenças vestibulares periféricas, centrais e vertigem postural fóbica estão no Quadro 1. Na Tabela 3 é mostrada a evolução verificada com o acompanhamento dos pacientes.

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Vertigem e tontura são consideradas sinônimos no dicionário Aurélio, no entanto, do ponto de vista médico estes termos podem ser utilizados com o seguinte significado: (1) "vertigem rotatória": define a sensação de que tudo roda ao redor de si mesmo ou que se está girando, freqüentemente associada a náuseas, vômitos e desequilíbrio. Esta queixa está presente quando há acometimento vestibular unilateral (periférico ou central); (2) "vertigem oscilatória": refere-se à sensação de balanços ou de perda de equilíbrio, raramente associada a náuseas ou vômitos, e pode ser devida a distúrbios vestibulares ou não vestibulares; (3) "tontura": é considerada como mal-estar, escurecimento visual, fraqueza, sintomas muitas vezes vagos sem ter a sensação de rotação ou desequilíbrio, e tem causa não neurológica, como exemplo: hipotensão postural, ataque vasovagal, arritmia cardíaca, hipoglicemia, e outras causas 3.

Durante a realização da anamnese foi importante a diferenciação entre os sintomas vertigem e tontura, que correspondem ao comprometimento de estruturas distintas. Os termos vertigem rotatória, vertigem oscilatória e tontura foram utilizados para classificar as queixas dos pacientes, o que facilitou o estabelecimento de diagnósticos diferenciais (Tabela 1).

No Gráfico 1 estão distribuídos todos os pacientes atendidos nos ambulatórios de vertigem, com doenças vestibulares e não vestibulares (outras causas neurológicas, causas clínicas e indefinidos). O Gráfico 2 mostra a distribuição de freqüências somente dos distúrbios do sistema vestibular. Em ambos os gráficos, a vertigem postural fóbica e enxaqueca foram analisadas em separado por não se enquadrarem nas doenças vestibulares periféricas ou centrais.

A distribuição das doenças encontradas nos ambulatórios apresentou pequenas diferenças comparada à relatada na literatura2 (Tabela 2). Houve grande porcentagem de pacientes com VPPB, acima dos valores encontrados por outros autores. A explicação para essa distribuição é um provável viés devido à realização de um estudo sobre VPPB no mesmo período, direcionando os pacientes com queixas sugestivas desta síndrome aos ambulatórios. As pequenas diferenças na freqüência de pacientes com neurite vestibular e enxaqueca são pouco relevantes se considerado o fato dos estudos terem sido realizados em populações diferentes.

Os diagnósticos de vertigem central no plano "roll" e de nistagmos downbeat e upbeat (vertigem central no plano "pitch") foram separados porque são devidos a lesões distintas (unilateral no primeiro caso e bilateral no último) e tiveram tratamentos diferentes4.

A freqüência de causas clínicas (Tabela 1) é difícil de ser avaliada e comparada pelas seguintes razões: (1) muitos pacientes provavelmente foram encaminhados por médicos clínicos, e as causas clínicas de tontura foram identificadas e tratadas sem necessidade de encaminhamento ao ambulatório de vertigem; (2) o relato da literatura não considerou este diagnóstico2.

A distribuição entre os gêneros variou conforme cada diagnóstico e o resultado está na Tabela 1 a média de idade foi 57,8, que pode ser explicada pelo fato destas patologias vestibulares atingirem indivíduos em faixa etária mais alta, variando pouco em cada doença.

O tratamento foi específico para cada patologia5-12 (Quadro 1), e a resposta ao tratamento foi avaliada com o acompanhamento dos pacientes. A evolução foi classificada em: (1) com melhora, ou seja, desaparecimento do nistagmo (p. ex: VPPB, neurite vestibular), diminuição do nistagmo (p. ex: nistagmo downbeat, upbeat, paroxismia), e diminuição da freqüência das crises (p. ex: doença de Menière, enxaqueca, vertigem postural fóbica); (2) sem melhora, quando houve persistência do sintoma e/ou alterações no exame físico; (3) indefinida, devido à perda de seguimento. O tratamento das doenças vestibulares periféricas incluiu a recuperação da função vestibular (p. ex: neurite vestibular), o controle e/ ou atuação na fisiopatologia da síndrome (p. ex: VPPB, doença de Menière, paroxismia vestibular, vertigem postural fóbica). Em relação aos pacientes com vertigem central o tratamento proposto foi aquele adequado à doença de base. Os dados da Tabela 3 mostram que a maioria dos pacientes teve boa evolução com o tratamento, significando que há bom prognóstico quando as doenças vestibulares são tratadas adequadamente.

Houve, porém, duas exceções em relação ao tratamento, dentre elas o nistagmo downbeat e a vestibulopatia bilateral, que tiveram pior prognóstico. No nistagmo downbeat há comprometimento bilateral de estruturas centrais com difícil compensação e, portanto, pouca resposta ao tratamento específico. Na vestibulopatia bilateral não ocorre compensação e/ou substituição satisfatória do sistema vestibular periférico comprometido em ambos os lados.

Através deste estudo retrospectivo, realizado com 515 pacientes atendidos em ambulatórios de vertigem pôde-se concluir que: (1) A partir da anamnese e exame físico dirigidos ao sistema vestibular foi possível estabelecer o diagnóstico das síndromes vestibulares e não vestibulares. (2) As síndromes mais freqüentes foram: VPPB, vertigem postural fóbica, vertigem central, neurite vestibular, doença de Menière, enxaqueca. (3) O tratamento específico levou a uma boa evolução na maioria dos pacientes.

 

REFERÊNCIAS

1. Ferri-de-Barros JE, Nitrini R. Que pacientes atende um neurologista? Alicerce de um currículo em neurologia. Arq Neuropsiquiatr 1996;54:637-644.        [ Links ]

2. Brandt T. Vertigo, its multisensory syndromes, 2nd Ed. London: Springer Verlag, 1999.        [ Links ]

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5. Furman JM, Cass SP. Benign paroxysmal positional vertigo. N Engl J Med 1999;341:1590-1596.        [ Links ]

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Aline Mizuta Kozoroski KanashiroI; Cristiana Borges PereiraII; Antonio Carlos de Paiva MeloIII; Milberto ScaffIV

Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE) e Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) São Paulo, SP, Brasil
IMédica estagiária do Ambulatório de Vertigem do Serviço de Neurologia do HSPE
IIDoutora do Departamento de Neurologia da FMUSP, responsável pelo ambulatório de Distúrbios Vestibulares do HC-FMUSP e Médica assistente do HSPE e responsável pelo ambulatório de Vertigem do HSPE
IIIDiretor do Serviço de Neurologia do HSPE
IVProfessor-Titular do Departamento de Neurologia da FMUSP

Endereço para correspondência


    A doença de Parkinson (DP) é uma doença crônica e progressiva do sistema nervoso central, envolvendo os núcleos da base e consequentem...

Perfil motor de pacientes com doença de Parkinson




    A doença de Parkinson (DP) é uma doença crônica e progressiva do sistema nervoso central, envolvendo os núcleos da base e consequentemente resultando em uma disfunção dos padrões de movimento. Acomete células da substância negra, que fazem parte do sistema dopaminérgico dos núcleos da base, esse sistema transmite sinais que controlam os movimentos do corpo (LEWIS, 2002).

    A doença de Parkinson é uma das doenças mais comum nos idosos. Apesar dos sintomas clássicos o diagnóstico clínico não é específico, não há exames laboratoriais, diagnósticos e existem outras doenças que se manifestam com Parkinsonismo e simulam clinicamente a doença de Parkinson, como a atrofia de múltiplos sistemas e a paralisia supranuclear progressiva (VEDOLIN; MARCHIORI, 2004).

    A prevalência da doença de Parkinson aumenta de acordo com a idade. 74% das pessoas com esta patologia têm mais de 70 anos e a média de início é de 65,3 anos. No entanto 1 a cada 7 parkinsonianos apresenta menos de cinquenta anos de idade. Não existe diferença de prevalência que se relacione ao sexo, classe social ou diferenças geográficas (STOKES, 2000).

    Clinicamente, a DP caracteriza-se por tremor, rigidez, bradicinesia e alterações da postura, do equilíbrio e da marcha. Além disso, os pacientes com DP podem apresentar alterações músculo-esqueléticas como fraqueza e encurtamento muscular, alterações neurocomportamentais como demência, depressão e tendência ao isolamento (CUTSON; LAUB; SCHENKMAN, 1995) e comprometimento cardiorrespiratório (CANNING et al, 1997) o que interfere diretamente na performance funcional e independência destes indivíduos.

    A maior parte dos pacientes com doença de Parkinson apresenta uma inadequada interação dos sistemas responsáveis pelo equilíbrio corporal; sistemas vestibulares, visuais e proprioceptivo, em consequência destas alterações esses pacientes tendem a deslocar seu centro de gravidade para frente, sendo incapazes de realizar movimentos compensatórios para readquirir equilíbrio e, assim, caem facilmente (ZUCO, 2003).

    A capacidade funcional, especialmente a dimensão motora, é um dos importantes marcadores de um envelhecimento bem sucedido e da qualidade de vida dos idosos. A perda dessa capacidade está associada à predição de fragilidade, dependência, institucionalização, risco aumentado de quedas, morte e problemas de mobilidade, trazendo complicações ao longo do tempo, e gerando cuidados de longa permanência e alto custo (CORDEIRO, 2003).

    O exame motor é um instrumento indispensável para os profissionais que trabalham com a terceira idade, particularmente indivíduos portadores de doenças- crônico degenerativa não transmissível. Sendo ponto de partida para uma intervenção terapêutica, pois permite identificar os problemas estabelecidos com a idade, diferenciar os diversos tipos de debilidade e, avaliar os progressos do idoso, quando submetido a um programa de terapia motora (ROSA NETO, 2002).

    A avaliação motora torna possível diagnosticar, orientar e identificar alterações em relação ao desempenho motor do indivíduo, para que haja maior fluência do movimento. A avaliação por meio de testes motores permite verificar os estágios progressivos da função física, de modo a detectar os declínios nos parâmetros físicos e planejar estratégias efetivas de intervenção.

Objetivo

    Avaliar a aptidão motora dos pacientes com Doença de Parkinson através da Escala Motora para Terceira Idade.

Materiais e método

Característica da pesquisa

    Esta pesquisa é caracterizada como descritiva diagnóstica, que segundo Rudio (1986) interessa-se em descobrir e observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e interpretá-los.

População e amostra

    O grupo foi formado por indivíduos adultos e idosos recrutados a partir de um projeto de atividade física para a terceira idade do Departamento de Fisioterapia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). Os critérios de inclusão utilizados na seleção destes indivíduos foram: ser portador de doença de Parkinson idiopática diagnosticada pelo neurologista, ter idade igual ou superior a 30 anos, não apresentar outra doença neurológica e nem alterações ortopédicas ou cardiológicas, não apresentar demência, estar em uso regular de medicação antiparkinsoniana e assinar o termo de consentimento.

    A amostra constituiu-se de 11 indivíduos com DP, sendo quatro pertencentes ao sexo masculino com faixa etária de 34 a 68 anos e sete mulheres com faixa etária de 55 a 82.

Instrumento de medida

    Foi utilizada a escala Hohen & Yahr que proporciona uma avaliação clínica e evolutiva da doença (MONTE, 2004). A escala Hohen & Yahr avalia os pacientes levando em consideração os reflexos posturais, assim como a bilateralidade da doença, especialmente no que se refere à independência para as atividades da vida diária (RASR; BORGES, 2002).

    O desenvolvimento motor foi avaliado através da Escala Motora para Terceira Idade (E.M.T.I), (ROSA NETO, 2002) que compreende um conjunto de provas diversificadas e de dificuldade graduada, conduzindo a uma exploração minuciosa de diferentes setores do desenvolvimento. A aplicação num sujeito permite avaliar seu nível de desenvolvimento motor, considerando êxitos e fracassos, levando em conta as normas estabelecidas pelo autor da escala, é de fácil manejo para o examinador, em geral as provas são muito estimulantes, onde o idoso colabora durante o transcurso do exame, estabelecendo uma confiança e empatia entre examinador e examinado, resultando em uma maior confiabilidade dos resultados (ROSA NETO, 2005).

    De acordo com Rosa Neto (2002), a EMTI consiste de testes motores clássicos reunidos em uma única bateria, é aplicado individualmente e sua duração é de aproximadamente 30 a 45 minutos. As variáveis analisadas são:

  1. AMG: Obtém-se através da soma dos pontos obtidos nas áreas de motricidade fina, coordenação global, equilíbrio, esquema corporal, organização espacial e temporal.

  2. AM1: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de motricidade fina.

  3. AM2: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de coordenação global.

  4. AM3: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de equilíbrio.

  5. AM4: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de esquema corporal.

  6. AM5: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de organização espacial.

  7. AM6: Obtém-se através da soma dos pontos alcançados nos testes de organização temporal.

    O exame motor pode ser iniciado pela sequência de provas motoras, motricidade fina, motricidade global, equilíbrio, esquema corporal, organização espacial e organização temporal.

Para todas variáveis os pacientes foram identificados pelos números: 1, 2, 3, 4, 5,6 7, 8, 9, 10 e 11.

    Para a pontuação e a classificação dos parâmetros motores foi utilizada a classificação que consta no quadro 1.

Pontos

Classificação

132 ou mais

Muito superior

120 - 129

Superior

110 - 119

Normal alto

90 – 109

Normal médio

80 - 89

Normal baixo

70 – 79

Inferior

69 ou menos

Muito inferior

Quadro 1. Classificação da EMTI

Análise estatística

    Os dados coletados foram inseridos num banco de dados computadorizado (EpiInfo) e processados eletronicamente, fazendo a associação das variáveis do estudo com os níveis mensurados na escala motora: motricidade fina, coordenação global, equilíbrio, esquema corporal e rapidez, orientação espacial e temporal.

    Para análise das variáveis da Escala Motora para Terceira Idade foram empregados procedimentos de estatística descritiva: cálculo de medidas de tendência central (média) e de dispersão (desvio-padrão).

    O resultado para aptidão motora geral foi apresentado em forma de gráfico através do programa Microcaltm Origintm, versão, 5.0 – 1997, e para variáveis da EMTI em forma de tabelas através do Microsoft Excel®.

Resultado e discussão

    Participaram deste estudo onze (11) pacientes com diagnóstico de Doença de Parkinson, sendo quatro do sexo masculino (36,4%) e sete do sexo feminino (63,6%), com idade mínima de 34 anos e máxima de 82 anos (média 66±14,29 anos). O tempo médio de duração da doença foi de 7 ± 5,4 anos. As características de todos os pacientes estão apresentadas na tabela 1.

    Observa-se na tabela 2 que as áreas motoras que apresentaram padrões motores abaixo da normalidade foram AM1, AM2, AM3, AM4 e AM6.

Tabela 1. Caracterização dos pacientes com Parkinson

 

Tabela 2. Análise das variáveis da EMTI dos 11 parkinsonianos da amostra

    Na tabela 3 constata-se que dentro dos dados analisados 2 (dois) indivíduos apresentaram escore correspondente a classificação inferior da EMTI, 8 (oito) indivíduos classificados como muito inferior e 1 (um) com classificação normal baixo. A média da aptidão motora geral foi classificada pela "EMTI" num nível muito inferior. As áreas que apresentaram as maiores dificuldades foram respectivamente, a motricidade global, equilíbrio, esquema corporal.

Tabela 3. Distribuição da freqüência da EMTI dos 11 parkinsonianos da amostra

    Conforme a figura 1 os participantes 7 e 11 foram os que menos pontuaram na aptidão motora geral chegando a um escore de 26 pontos e 47 respectivamente. Justifica-se essa pontuação pela idade avançada e pelo tempo de acometimento da doença.

Figura 1. Aptidão Motora Geral

    A doença de Parkinson é uma doença cuja prevalência aumenta com a idade, chegando a 1% em indivíduos acima de 60 anos. Com o aumento da expectativa de vida, estima-se que por volta de 2020, mais de quarenta milhões de pessoas no mundo serão portadores de doença de Parkinson (GOULART et al, 2005).

    De acordo com Meneses (2003), podem-se encontrar pacientes com início da doença mais precoce, antes dos 40 anos e, até mesmo, abaixo dos 21 anos de idade. A doença de Parkinson pode ocorrer nas diferentes raças e classes sociais em pessoas de ambos os sexos, apesar de alguns estudos epidemiológicos demonstrarem maior frequência no sexo masculino.

    Na maior parte dos casos a manifestação da doença surge aos 60 e 70 anos de idade. Não há predominância de sexo, apesar de nos casos de início precoce, pode haver maior prevalência no sexo feminino (DONOSO et al, 2003).

    Vieira (2002) cita que o surgimento da doença não tem relação alguma com o sexo. Neste estudo encontrou-se maior prevalência do sexo feminino 7 (sete) 63,6% casos de mulheres com doença de Parkinson.

    No que se refere ao tempo de diagnóstico pode-se constatar que o menor tempo de patologia foi de 2 anos e o maior foi de 20 anos, tendo como média de diagnóstico 7 anos.

    Quanto ao estadiamento de Hoehn e Yahr dos 11 (onze) pacientes avaliados, a maior prevalência na escala de estadiamento foi cinco (5) participantes com o estágio 2,5, dois (2) com estágio 3, dois (2) com estágio 4 e dois (2) com estágio 1,5. Também se percebe que todos os participantes fazem uso do fármaco Levodopa.

    De acordo com Picon e Beltrame (2002) a levodopa é a droga mais efetiva no controle dos sintomas da DP, especialmente rigidez e bradicinesia. Embora nunca tenha sido testada contra placebo, sua consistência de efeito nos mais de 30 anos de experiência valida sua utilização clínica. Levodopa mostrou ser mais eficaz, em estudos controlados randomizados, no controle dos sintomas motores que os agonistas dopaminérgicos.

    Segundo Carvalho Filho (2000), a classificação da maioria como muito inferior, pode ser devido ao declínio das funções neurais e físicas naturais ao processo de envelhecimento e também, devido às doenças que os acometem.

    A motricidade global é responsável pela regulação do equilíbrio e da atitude do indivíduo, desempenhando um importante papel na melhora dos comandos nervosos e no afinamento das percepções e sensações (ZABALETA, 1996).

    Estudos recentes denotam a importância de instrumentos de diagnósticos e de acompanhamento para pacientes com transtornos de equilíbrio, tendo vista a complexidade desta área motora (GENTILI; KREMENCHUTZKY; SALGADO, 2003). No estudo de Teixeira (2003), com 142 pacientes os valores para a motricidade global e equilíbrio foram classificados como muito inferior.

    Além disso, os pacientes com doença de Parkinson podem apresentar alterações músculo-esqueléticas como fraqueza e encurtamento muscular, alterações neurocomportamentais como demência, depressão e tendência ao isolamento e comprometimento cardiorrespiratório o que interfere diretamente na performance funcional e independência desses indivíduos (GOULART et al, 2004).

    Conforme Andrade (2000) a rigidez e a bradicinesia (movimentos lentos), os tremores e as alterações posturais são distúrbios motores característicos da doença de Parkinson que acomete principalmente pessoas idosas, podendo causar sensíveis alterações motoras e psicológicas com a evolução da doença, contribuindo para a debilidade na capacidade funcional.

    Segundo Rosa Neto (2006), a diminuição dos mecanismos de equilíbrio (principalmente instabilidade postural), diminuição da função vestibular, prejuízo da audição e visão, e diminuição da sensibilidade vibratória e propriocepção, a diminuição da força muscular e as alterações posturais afetam as tarefas motoras que solicitam equilíbrio, e motricidade global

Considerações finais

A pesquisa desenvolvida demonstrou de forma clara uma das maiores complicações da doença de Parkinson, que é o déficit motor.

    O processo natural do desenvolvimento está ligado a modificações anatômicas e fisiológicas, que podem propiciar ao paciente com doença de Parkinson uma certa dificuldade de adaptação, devido aos comprometimentos motores que esses pacientes sofrem.

    O estudo foi de extrema importância, onde se pode traçar um perfil desses pacientes e dessa patologia que a cada dia se torna mais conhecida pela população. A pesquisa tem também um caráter informativo, permitindo, que pessoas portadoras ou não possam se informar e conhecer as verdadeiras limitações diretas e indiretas do Parkinson, permitindo assim a sua utilização para novos estudos ou até mesmo para futuras comparações. Os estudos sobre a doença de Parkinson devem ser cada vez mais incentivados, pois assim teremos um maior conhecimento para tratar de forma correta e com maior certeza dos pontos a serem melhorados.

Referências

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Autores:

Rodrigo da Rosa Iop*

Franciele Cascaes da Silva**

Thatyana Costa Brandão***

fisioptb@hotmail.com

(Brasil)


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